Quando me apresento como praticante de kendo, muitas pessoas, inclusive aquelas que não praticam artes marciais, frequentemente me perguntam se conheço O Livro dos Cinco Anéis, escrito por Miyamoto Musashi. Talvez elas sejam fãs de Vagabond. Gostaria de sugerir outro livro para quem aprecia a cultura ou as artes marciais japonesas: Zen na Arte do Tiro com Arco (弓と禅), escrito pelo filósofo alemão Eugen Herrigel. O professor Reishi Moriwaki me recomendou essa obra para compreender a essência da cultura japonesa.
Eugen tinha interesse pelo misticismo oriental desde jovem e conseguiu um emprego como docente na Universidade de Tohoku. Quando consultou um amigo sobre como aprender Zen, uma escola do budismo que enfatiza a meditação e a experiência direta, recebeu a indicação de praticar uma arte japonesa. Ele escolheu o Kyudou (caminho do arco), uma arte marcial japonesa que combina técnica e espiritualidade. Entretanto, seu aprendizado foi muito difícil. Embora tentasse compreender as técnicas de forma lógica, seu mestre nunca explicava métodos diretamente, insistindo para que treinasse com o coração. As palavras abstratas do mestre eram complicadas para o filósofo, que estava acostumado à lógica. Sua experiência demonstrou claramente a colisão entre duas culturas distintas.
Certo dia, Eugen perguntou ao mestre:
‘Mestre, como posso lançar a flecha?’
‘Você não pode lançar. Isso lança.’
‘Como posso acertar?’
‘Você não pode tentar acertar. Isso acerta.’
(どのように放つですか。あなたが放ってはいけません。「それ」が放つのです。どのように当てるのですか。あなたが当てようとしてはいけません。「それ」が当てるのです。)
O filósofo ficou confuso com a resposta, sem entender o que seria ‘isso’.
Essa conversa entre Eugen e seu mestre de Kyudou ilustra bem as diferenças tanto entre as culturas ocidental e japonesa quanto entre suas línguas. Enquanto as línguas de origem latina exigem um sujeito, a língua japonesa não necessariamente o faz. Imagino que o mestre tenha dito algo como: ‘放ってはいけません。放れるのです。あなたが当てようとしてはいけません。当たるのです。’ Talvez ele não tenha usado a palavra ‘それ’.
Depois de muito tempo de dedicação, Eugen finalmente compreendeu o caminho do arco e o espírito do Zen. Sua história nos ensina como a paciência e a entrega podem superar barreiras culturais. Se você se interessa pela cultura japonesa ou pelo Zen, recomendo fortemente a leitura desse livro.

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