Ontem, conversei com um amigo sobre por que os brasileiros gostam de praticar kendô. Ele respondeu que é porque eles amam os samurais. Segundo ele, alguns praticantes brasileiros de kendô preferem aprender a filosofia dos antigos guerreiros a estudar as técnicas da arte marcial.
Até hoje, o estilo de vida dos samurais continua atraindo tanto japoneses quanto estrangeiros. Existem inúmeras obras que prestam homenagem a esses guerreiros: Os Sete Samurais, O Último Samurai, Vagabond, Ghost of Tsushima, Shōgun, entre outras. Uma obra que recomendo é The Elusive Samurai, que conta a história de Tokiyuki Hōjō.
A filosofia do samurai é chamada de “Bushidô”. Apesar do nome ser bastante conhecido, sua teoria não é tão amplamente compreendida. Provavelmente, o conceito se popularizou mundialmente por meio do livro Bushidô, escrito por Inazō Nitobe. Um amigo do autor lhe perguntou como o povo japonês aprendia valores morais, já que o Japão não ensinava religião nas escolas, como o cristianismo no Ocidente. Nitobe, então, escreveu sua obra como resposta.
Segundo ele, o espírito do bushidô foi formado sob a influência do xintoísmo, budismo e confucionismo. O autor apresenta sete virtudes como pilares da moral samurai: 仁 (jin, benevolência), 義 (gi, justiça), 勇 (yū, coragem), 礼 (rei, respeito), 誠 (makoto, sinceridade), 名誉 (meiyō, honra) e 忠義 (chūgi, lealdade). A propósito, acredita-se que o hakama — vestimenta tradicional dos samurais — possui sete pregas, representando justamente essas sete virtudes. Essa explicação é bastante difundida em blogs e entre praticantes de artes marciais japonesas. Até mesmo alguns japoneses acreditam que os samurais foram guerreiros justos que seguiam fielmente essas virtudes.
Entretanto, infelizmente, não podemos ignorar que essa imagem do samurai é, em grande parte, uma idealização. Nitobe descreveu os samurais de forma positiva e até exagerada porque queria apresentar a moral japonesa de maneira favorável aos estrangeiros durante a Era Meiji, quando o Japão era visto como um país em desenvolvimento.
O samurai leal e sincero descrito por Nitobe é uma idealização do período Edo, quando o governo Tokugawa buscava evitar revoltas e manter a ordem. Antes disso, durante o período de guerras civis, os samurais eram guerreiros que buscavam promoções e vantagens pessoais. Há um ditado famoso de que “um samurai que não trocou de senhor ao menos sete vezes não é verdadeiro samurai”. Era comum que os samurais procurassem senhores que os valorizassem mais.
Além disso, táticas como ataques de surpresa não eram vistas como desonrosas. Um episódio famoso narra que um samurai matou um bandido fingindo ser um monge — uma estratégia engenhosa, porém distante do ideal romântico de honra absoluta. Pessoalmente, prefiro histórias de samurais como guerreiros astutos do que como ídolos morais. Pessoalmente, acho mais interessante o samurai retratado como um guerreiro estratégico do que como um modelo de virtude. E você, qual imagem prefere?

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