象は鼻が長い — Considerações sobre o sujeito na língua japonesa
Quando mencionei a questão da existência do sujeito na língua japonesa no HelloTalk, um espanhol comentou sobre a frase 「象は鼻が長い」 . Ele certamente é um estudioso do idioma.
Essa frase é, na verdade, o título de um livro escrito por Akira Mikami, em que o autor discute a presença (ou ausência) do sujeito na estrutura frasal do japonês. Na época, era comum considerar que as partículas 「が」 e 「は」 marcavam o sujeito. No entanto, Mikami questionou essa ideia e mostrou que ambas podem coexistir numa mesma frase — como no exemplo citado.
O que é, afinal, o sujeito em uma frase?
Muitas pessoas acreditam que o sujeito é “quem faz a ação” ou o agente da frase. No entanto, esse conceito não é inteiramente preciso. É fácil perceber isso ao observar o inglês:
It rains today.
(“Está chovendo hoje.”)
Nesse caso, o pronome “it” não se refere a nada concreto; não existe um agente que provoca a chuva. Mesmo assim, sua presença é gramaticalmente necessária para definir a forma verbal.
Ou seja, o sujeito é, na verdade, o elemento que determina a forma do verbo — e não necessariamente um agente real.
Sob essa perspectiva, pode-se afirmar que não há sujeito na gramática da língua japonesa. A forma dos verbos japoneses é determinada apenas pelo tempo verbal e pela polaridade (afirmativa ou negativa) — e não por flexões ligadas ao sujeito.
(Nota: neste texto, não abordarei a partícula 「は」. Para isso, recomendo o seguinte artigo:
O uso excessivo de 私は em japonês)
Qual é, então, a função da partícula 「が」?
De forma geral, 「が」 pode marcar:
- o agente que realiza uma ação
- um fenômeno espontâneo
- uma característica ou natureza de algo
Exemplos:
- パウロさんが行く。 (Paulo vai.)
- 地震が起こる。 (Ocorre um terremoto.)
- 髪が長い。 (O cabelo é comprido.)
A partícula 「が」 aparece entre a informação e o predicado. Contudo, ao contrário de outras partículas que podem ser combinadas com diferentes formas, 「が」 raramente é usada junto com outras — salvo algumas exceções.
O linguista Takahide Ezoe a diferenciou das chamadas partículas relacionais e optativas, e propôs um novo termo: partícula informativa (情報助詞).
Mas isso não basta para explicar 「象は鼻が長い」
Uma característica particular da partícula 「が」 é sua capacidade de formar unidades informativas — grupos de palavras que, juntas, assumem a função de predicado ou de qualificador.
Compare:
- パウロさんはアイスが好きです。
(Nesta frase, “Paulo” e “sorvete” se relacionam diretamente ao verbo.)

Agora veja:
- 象は鼻が長い。
(Nessa frase, é estranho interpretar “象は長い” — “o elefante é comprido” — isoladamente.)
Na verdade, “鼻が長い” forma uma unidade de informação que atua como o predicado da sentença.

Veja outros exemplos similares:
- 臭いがきつい食べ物 — Comida com cheiro forte
- 納豆は臭いがきついです。 — O natto tem um cheiro forte
- 歯が命の仕事 — Trabalho em que os dentes são essenciais
- 俳優は歯が命です。 — Para os atores, os dentes são essenciais
Nesses casos, expressões como “臭いがきつい” e “歯が命” são compostas por duas informações interligadas por 「が」, formando uma unidade semântica. É desafiador, mesmo para estudantes avançados, identificar corretamente essas unidades e compreender a relação entre seus elementos em frases mais longas e complexas.
Conclusão
Apesar de parecer simples, a frase 「象は鼻が長い」 é um exemplo linguístico riquíssimo que ilustra uma das particularidades mais intrigantes da estrutura frasal do japonês. Estudar suas camadas ajuda não apenas a entender o funcionamento da língua, mas também a apreciar a sofisticação da gramática japonesa.

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